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Cinemathèque
Da Pesada
29 de janeiro de 2008

por bernardo mortimer

IMG_7569.jpgE eis que a última noite de segunda-feira abriu um túnel do tempo para o início da movimentação carioca lá de uns quinze anos atrás, não por acaso o ainda início do CEP 20.000 e de sua extensão musical, o Humaitá Pra Peixe (sabe?). Pedro Luís e, em menor escala, Rodrigo Maranhão, são duas figuras hoje estabelecidas no cenário carioca que amadureceram em um circuito que ligou o Sérgio Porto a uma volta, na época ainda incipiente, dos blocos ao carnaval de rua e das baterias a eles atreladas. Década de 90... Se Pedro Luís é o mais velho e podia ser considerado o que teria mais a dizer e a contar sobre música e memórias, Rodrigo Maranhão tratou de empatar o jogo com tiradas bem humoradas e muito jogo de cintura para o formatinho do talk show do Cinemathèque. Para o público presente, aliás que público mais estudado na obra dos dois!, o resultado foi o dobro de satisfação garantida.

Tudo começou pelo começo. Rodrigo se lembrou do bloco de carnaval de Itaipava Cada Ano Sai Pior (hoje finado). Foi lá que se encantou com o batuque mal improvisado de uma agremiação para não ser levada a sério, e antes de virar adolescente já conquistou espaço: "Nem me lembro quantos anos eu tinha, só sei que o bloco nunca saiu sem mim na bateria. Sempre me esperou".

Dos carnavais em Itaipava veio a lembrança das viagens familiares de carro, quando o pai (presente na platéia) assumia o volante e a batuta do coral automóvel: "já tinha até divisão de voz, a prima mais desafinada ficava com o agudo". A música que ilustra a infância do pequeno Rodrigo é acompanhada pelo público sem medo de voltar lá pra trás: My Bonnie, canção de ninar em língua inglesa.

Pedro teve outra vivência musical na infância. De família cheia de gente, na Tijuca, tinha ali em casa os exemplos a admirar: as irmãs que ao longo dos festivais da década de sessenta foram contribuindo para a criação da tal música popular brasileira. Foram elas que mostraram ao ainda menino o que era um violão. O instrumento, no caso, era batizado de Lobuarque, daí a primeira música que Pedro apresentou ao público: Rita, de Chico. "É, Edu Lobo não tá pro meu bico, não".

Passadas as histórias de infância, os caminhos já foram misturados. Pedro aproveitou o fato de estar sem voz para contar que a primeira parceria gravada entre os dois começou na Uni-Rio, onde estudaram juntos, e que acabou sendo gravada no "dia seguinte a um FlaxFlu (mas se me permitem, se foi depois do jogo em que o Pet fez um gol de falta e decretou o 3x1, o jogo foi mesmo é um FlamengoxVasco menos charmoso). Rodrigo, flamenguista, estava afônico, e gravou assim mesmo. "É linda [a gravação] porque não sou eu, é um sambista velho, de voz rouca, cheio de história". "É, minha mãe adorou, até falou: 'Pedrinho, você quando canta é bonitinho, mas esse teu parceiro aí é lindo...'"

Voltando para a infância, Pedro se recorda da professora que o incentivou a escrever a primeira composição, ainda no colégio, que tinha o verso inesquecível "no mundo, não existe som mudo/ no fundo, a vida é tudo". Hilariamente profundo. Rodrigo não ficou para trás e mostrou que em termos de primeira composição, também é assumidamente ruim. Foram fácil as duas piores e mais engraçadas palhinhas da noite.

Rodrigo foi jogador de basquete, mas largou o esporte para se dedicar à noite. E, para ganhar um dinheirinho que fizesse frente ao que ganhava com a camisa tricolor em quadra, partiu para as rodas de samba. Foi lá que criou repertório, conheceu gente, se calejou, e partiu para o Bangalafumenga. Antes, no entanto, parou para cantar Antonico, de Ismael Silva, uma ode às dificuldades da vida de músico da noite.
Seguindo o modelo de entrecortar a história de um e outro entrevistado até que isso não fosse mais possível, o microfone foi para Pedro contar que fez parte de um coral famoso de curso de inglês, organizado pelo maestro Marcos Leite, onde ganhou incentivo forte para se tornar artista. Era um coral que usava muito a dança e a movimentação em cena. De lá, só saiu indicado para o que se tornaria o último espetáculo do histórico grupo teatral Asdrúbal Trouxe o Trombone. Com o teatro, morou em São Paulo e formou a primeira banda legal, a Paris 400.

Rodrigo se permitiu um salto no tempo e chegou a 1998, ano sem HPP e quando o Banga... foi às ruas e fez um carnaval no circuito underground da cidade. Foi então que conheceu os primeiros nomes da longa lista de cantoras que lhe encomendou alguma música, donde se destacou Fernanda Abreu, com o Baile da Pesada (Ei, Mister dj, quero nitroglicerina...). "Eu tinha quinhentas músicas de vários acordes, e com a Fernanda comecei a fazer com dois, às vezes com um só". Simplicidade foi a lição, e Pedro logo concordou.
O perguntador Bruno Levinson queria um olho na lente da verdade, e perguntou: "rola de se decepcionar com o resultado de uma composição na voz de outra pessoa?" Pedro disse que não. Rodrigo olhou bem no olho do parceiro, meio de lado, respirou fundo, e assumiu: "rola..." A gargalhada foi geral. E foi a deixa para o engraçadinho tocar Baile da Pesada em uma versão, deve-se dizer, muito perto da que ficou conhecida com Fernanda Abreu. Estava longe de ser um exemplo de decepção...

IMG_7694.jpgAinda nessa época, ou um pouco antes, Pedro começava a participar do CEP 20.000, evento de poesias capitaneado por Chacal (que, aliás, batizou também o Bangalafumenga e o Humaitá Pra Peixe). Pedro era da banda de Arícia Mess, um fenômeno bronzeado alternativo carioca de então, e líder da pesada Urge. Das subidas e descidas do palco, e dos esbarrões na praia, no baile e nas arquibancadas de teatros, surgiu um convite do então produtor do CEP, Michel Melamed, para uma apresentação especial de um CEP 20 Música: o encerramento do evento com vinte minutos. Nascia a Parede de Pedro Luís. A banda tocaria, depois, em duas edições do HPP. O Bangalafumenga tocou quatro vezes, e Rodrigo ainda se apresentou uma quinta, como artista-solo.

Depois de tantas histórias do passado, chegou a hora de olhar para frente. Cada um pôde mostrar uma inédita. A de Rodrigo veio com uma historinha junto. Uma noite, jogava videogame em casa com o filho Joaquinzinho quando foi interrompido pela mulher para um belo de um esporro: "Pô, tu não é compositor? Vai ficar jogando videogame aí pra sempre, não tem uma música pra compor, não?" "Pô, fiquei com aquilo na cebça, levantei meio puto, e fui fazer a música". Depois disso, voltou com Passageiro pronta, uma das mais bonitas da noite, cheia de versos em meta-linguagem, sobre o tempo, com melodia meio árabe com agudos de Caetano Veloso. Mostrou a música pra mulher, e cumprida a obrigação de compositor, voltou ao videogame do filho. Pode ficar na expectativa que vale a pena.

Para encerrar a noite, um mini set com quatro ou cinco músicas dos dois, como Rap do Real e e o sorriso composto em parceria por todos os presentes na noite. Mais uma bela noite na Cinemathèque

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Comentarios Enviados
manuel [29 de janeiro de 2008]

Li com entusiasmo o texto que fala de Rodrigo Maranhão, que passou recentemente por Portugal. Li numa entrevista que Rodrigo é neto de português, que nasceu em Fão, Esposende, onde eu nasci também e ainda moro. Gostaria de ter o e-mail de Rodrigo para o contactar e ficaria muito agradecido se esta minha mensagem fosse lida por ele.
Cumprimentos
Manuel


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