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Cinemathèque
Entre e Fique à Vontade
15 de janeiro de 2008

por bernardo mortimer

kassinBig.jpgA sem-cerimônia marcou a conversa de Bruno Levinson com Alexandre Kassin, Domenico Lancellotti e Moreno Velloso, na noite de segunda-feira. Em tempos de tanta gente dando regras sobre como empostar a voz, falar bem, vender o peixe e tantas outras formas corretas de se apresentar, de media training e similares, o trio +2 exibiu despretensão e originalidade justamente por naturalizar uma série de assim chamados pecados, como o excesso de piadas internas, o riso fora da hora, a zoação sobre a pergunta do mediador, as histórias ditas sem microfone e os silêncios que precediam cada gargalhada.

Ao serem, assim, "mal-comportados", trouxeram espontaneidade e humor a um formato de entrevista em que perguntas e respostas muitas vezes são apenas marcações pré-ensaiadas. É assim em geral na tv, mas ficou longe disso, um convite à aproximação, mais uma vez no Cinemathèque.

O papel de cada um dos três integrantes do +2 é, naturalmente, bem definido. Kassin é o sem jeito, simpático que ri e concorda. Domenico é o palhaço, que não hesita em utilizar a si próprio para fazer graça. E Moreno fica com o humor de peças que prega sobre os outros dois. Um quarto componente é Pedro Sá, guitarrista que se juntou ao trio antes dos quinze minutos de entrevista, responsável pelo primeiro encontro entre eles, e o tímido que não conta a piada, mas passa adiante para quem pegar.

Conhecidos desde os tempos de colégio, os quatro agem em equipe por instinto, com um entrosamento que dificultou qualquer tentativa de Bruno Levinson de tentar efetivamente fazer valer as anotações que tinha preparado no papel. No máximo, deu pra começar perguntando a Kassin como ele se aproximou da música, e especificamente da new wave. O hoje produtor de mil discos contou as coreografias de músicas de Devo e B-52s que ensaiava em casa com o irmão, discotecário da famosa Mamão com Açúcar, boate carioca dos anos 80. Claro, ao citar a dancinha do Devo, foi fácil para Domenico explicar a origem da falta de expressão do terço americanófilo do trio, que já teria até sido substituído, em turnê, por um totem em papelão.

Foi Domenico então que assumiu o microfone e começou a falar sobre o pai, o compositor Ivor Lancellotti, que tratava a casa como um verdadeiro quartel-general da mpb, e hoje se tornou um adorável hipocondríaco que não sai de casa sem o lexotan que mordisca a cada freada mais brusca do ônibus. A quem, aliás, cortando o assunto, Moreno tratou de agradecer pela "experiência inestimável" de ter podido acompanhar ao pandeiro em duas ou três ocasiões.

Aliás, o filho de Caetano Veloso cantou sem violão Tudo Tudo Tudo, música composta para ninar o então bebê, e incluída no clássico da década de setenta, Jóia. Hoje, a música completa um ciclo e embala o sono da neta de Caetano, filha de Moreno, com dois anos de idade completados na semana passada. Ao falar da data, se lembrou que com a mesma idade sabia a letra da primeira parte de Só Vendo Que Beleza. E tocou a música de Henricão e Rubens Campos gravada no disco Máquina de Escrever Música, dele mesmo +2, errando inconscientemente ou não justamente a entrada para a segunda parte.

A bola voltou para Kassin, que começou a falar de Edson Lobo, baixista de uma série de discos clássicos de música brasileira na década de 70, seu vizinho na infância e adolescência em um prédio de Copacabana. Foi dessa época o primeiro contato com João Donato, que anos mais tarde iria participar da gravação do segundo disco do Acabou la Tequila e ainda virar parceiro na composição de O Seu Lugar, que foi interpretada em seguida. A música foi o resultado do encontro de uma base de Donato com uma letra composta por Kassin em um ônibus da turnê do +2 pela Polônia.

É nesse momento que as histórias começam a deixar de ser individuais para serem de uma turma. O método de todos participarem debochando um da história do outro, sempre com alguém imitando a voz de um personagem (aliás, sempre a mesma imitação: voz mansa e aguda, seja o homenageado a Vanessa da Mata ou o Beto Guedes), foi se intensificando. Domenico lembrou ter sido injustamente expulso da sexta série do colégio Andrews no último mês do ano letivo, o que o empurrou para o Senador Corrêa, uma escola menor e menos rígida. Lá conheceu Pedro Sá, que passava os recreios e as aulas em pé no centro do pátio, com uma capa de chuva e chinelos, pensando em música. Moreno também era aluno, e acabou virando colega de aula de inglês. Os novos amigos apresentaram o rock e o jazz ao filho do quartel da mpb, e Killing an Arab do the Cure foi a música que ilustrou esse pedaço da história, cantada em inglês gritado e lido de uma cola tirada do google durante a passagem de som, uma hora antes.

O papo mal tinha voltado, Kassin começou a rir sozinho e pediu a palavra para lembrar da primeira vez em que foi à casa de Moreno. Uma estante linda cheia de discos na parede chamou a atenção do adolescente de quarto imundo. Primeiro a letra 'a', a 'b', até que no 'c' três palmos de lps de Caetano Veloso se destacavam. "Pô, teu pai tem muito disco, muito maneiro, bom gosto, mas quem é o cara que se preocupa em ter todos os discos do Caetano?" Claro que o gozador Moreno demorou ainda uns anos até explicar o motivo de tanto disco de um mesmo artista naquela casa.

A cada causo desse tipo, um dos três que seguravam instrumentos de corda puxava a mesma vinhetinha instrumental, uma brincadeira típica de ensaio de adolescentes cheios de energia hormonal, repetida sem pudor pelos três. O único de fora na brincadeira era o percussionista, Domenico, que apesar de atrás não de baquetas mas de um sampler mpc, mantinha a tradição de bateristas em ensaios juvenis e não parava de fazer barulho. Só que no caso, os barulhinhos eram bem bons.

Kassin seguiu contando a experiência dele em colégios (também não foi lá muito fiel a uma só escola), como quando desincentivado pela mãe a cantar, adotou o baixo no coral da igreja da escola da vez, o Sagrado Coração de Maria, em Copacabana. Foi a chance de passar a ouvir um repertório mais popular,, que além das músicas religiosas, tinha forró, música romântica e muito Roberto Carlos. Foi a deixa para As Curvas da Estrada de Santos, em versão guitarra e voz e algum mpc.

kassinBig2.jpgDas primeiras bandas de colégio, o papo naturalmente caiu para o Mulheres Q Dizem Sim e Acabou la Tequila, bandas que trouxeram para o Rio de Janeiro a boa e velha história inglesa do Joy Division: pouca gente ouviu, mas quem ouviu criou uma banda que deu certo. Domenico lembrou de uma passagem do tupiniuorquino Arto Lindsay pelo Brasil, na época para produzir o disco Estrangeiro de Caetano. O gringo adorou o som da banda que ainda tinha Pedro Sá, Palito, hoje diretor de tv, e Maurício Pacheco, do Stereo Maracanã. E para demonstrar o amor, deu o primeiro pedal de distorção da vida de Pedro Sá, além de preciosas lições sobre experimentalismo, que duram até hoje. Dessa época, Domenico lembrou histórias como a do show do Chico Science e Nação Zumbi no Circo, que repercutiu durante meses no estúdio onde também ensaiavam o Planet Hemp e o Raimundos em fase carioca. Na hora de mostrar alguma coisa da banda, Moreno foi intimado a mostrar a versão dele para Eu Sou Melhor Que Você, de Maurício Pacheco, também no primeiro disco dos +2. Na seqüência, quando Kassin (não) respondeu sobre o Tequila, Moreno aproveitou e revelou um segredo: existe um disco gravado e não lançado do Mulheres com o produtor Chico Neves.

Ao ser perguntado sobre assumir a figura de compositor, Moreno reclamou de não ser considerado apenas músico, e quis mostrar que entre os quatro sentados no palco, era o que menos tinha composições. Uma brincadeira, é claro, que deixou Bruno outra vez vendido na função de mediar as trocas sem fim de brincadeiras sobre o palco. Depois de alguma insistência, mas sem deixar de rir e de constranger carinhosamente o pobre perguntador, veio o desabafo elegante. Ele compõe pouco, e tem dificuldade em se desfazer das músicas que cria. O bom exemplo sãs as duas recentes que a madrinha Gal Costa encomendou para o disco de inéditas, que ao serem produzidas por César Camargo Mariano, ficaram "esquisitas": "não é que ficaram esquisitas, mas ficaram muito diferentes do que eu tinha feito, e do que é o universo em que eu trabalho, com os músicos que são meus amigos e o Kassin na produção, que é um universo nada a ver com o da Gal e do Camargo Mariano." Nisso fala de Roberta Sá, que também pediu uma música e também se assustou com a notícia de que a desejada estava no disco de Gal, irreconhecível, tanto que nem tinha sido identificada. O jeito foi Moreno enrolar até o último dia de gravação de Roberta, quando por acaso se encontraram na aula de pilates, e não deu pra fugir: fez a música com o parceiro Quito Ribeiro ao longo daquela madrugada.

As histórias de um e de outro se superavam em graça, e iam revelando situações como a participação do Quarteto Em Cy no disco experimental e eletrônico de Domenico ou o dia em que o próprio agradeceu a uma platéia de japoneses pela criação do mpc (americano), até que Bruno deixou o palco e o trio mais um (Pedro Sá) começou o show propriamente, com o repertório só da banda em versões meio improvisadas e decididas na hora. Certamente, o clima informal permitiu uma troca de idéias contadas ou cantadas suficiente para deixar claro que essa turma formada em colégios da zona sul do Rio é mesmo bem diferente de todo o resto da música brasileira contemporânea. E, pelo respeito e curiosidade que desperta entre mais jovens e mais velhos, uma galera para ficar na linha de frente do som que se faz no país.

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Comentarios Enviados
bernardo mortimer [15 de janeiro de 2008]

É o próprio disco do projeto +2, 'Sincerely Hot'.

Abel [15 de janeiro de 2008]

qual o nome do disco experimental e eletrônico de Domenico?

Ana [15 de janeiro de 2008]

Adoraria ter ido assistir a esse imperdivel bate papo maravilhoso, com esses meninios que sao " o que ha" de mais bacana na nossa cultura carioca de ser.
Ps1: Estou em Sao Paulo.
Ps2: Me desculpem o portugues, pois nao sei por acento pelo computador.


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