Lições, Presentes e Sons
24 de janeiro de 2008
por bernardo mortimer
No entanto, o baterista do Paralamas foi mais engraçado. Ao contrário de um mal da espécie (mantenhamos o clima das piadas, pelo menos por enquanto), falou mais do que batucou. Mexeu, sim, muito as mãos. Gesticulou até quando sem baqueta, assim como perdeu o olhar mais de uma vez ao falar da figura do baixista, companheiro de cozinha, e não encontrá-lo no rabo de olho. Ato falho total. Assim, reforçou o reconhecimento de que, para ele, é difÃcil tocar sem o que acompanhar. Portanto, anotem a lição: bateria, assim como baixo, é para ser tocado não para si, mas sempre para a banda.
Barone começou tentando definir a bateria: ao mesmo tempo meio gutural, das cavernas e circense, um convite à diversão. Por um motivo ou outro, costuma fazer brilhar os olhos de crianças e arrepiar o cabelo de pais, mas de um tempo pra cá isso foi mudando e o preconceito caindo. Até que há uns vinte e poucos anos a bateria eletrônica começou a competir por um mesmo espaço. Todo mundo achando que era o fim daquele amontoado de tambor no fundo do palco, produtores pelo mundo preferindo a comodidade da novidade, e tudo mais... E hoje ainda existem bateristas e gente que assiste a workshops de bateria. Portanto, pode acreditar, vale a pena juntar caixa, tons, surdo, contra-tempo e pratos para tocar. O espaço tá garantido, a bateria eletrônica achou o dela.
Tudo começou em ItaguaÃ, perto da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, quando foi ter aulas com o baterista da banda de baile do clube da cidade. Ainda demorou até Barone recolher uma bateria abandonada e reformá-la com couros de cabra que molhava na água para amolecer. Foram tempos difÃceis, que só foram deslanchar mesmo quando conheceu Bi Ribeiro e Herbert Viana, dupla com quem formou o Paralamas há vinte e cinco anos. "Foi muito bom a gente evoluir junto, se dedicar ao instrumento partindo de um mesmo ponto, sem regra, e ir vendo as coisas dando certo, em um esquema que é quase familiar." Mas Barone adverte: se puder, estude formalmente a música, isso só faz bem.
Enquanto falava, as mãos não paravam. Se lembrou dos discos de Secos e Molhados, Mutantes e Rita Lee que tirava de ouvido para praticar, lado a lado com os de bandas inglesas como Smiths, Cure e U2. Só quando o Paralamas assinou contrato com uma gravadora finalmente comprou a segunda bateria, uma abandonada no estúdio de gravação que tinha sido de Lobão.
Para responder sobre como segura a baqueta, em estilo semelhante ao de Stewart Copeland (batera do Police), fez uma revelação: "É, ele me imitou". Todos riram, e ele foi e contou que a tal 'pegada tradicional' - feita com o polegar em pinça com a lateral da palma, e não com o indicador - nasceu dos cortejos de jazz de Nova Orleans há mais de cem anos, onde se toca até hoje marchando em qualquer cerimônia pública, até em enterros. Do Police, citou também o aprendizado pela forma de levar um power trio sem buscar ansiosamente preencher todos os espaços: "o Police mostrou o lugar dos silêncios, da repetição das notas no baixo, etc."
Daà sentou na bateria e mostrou a evolução do instrumento, que na época de Ringo Starr era pequeninho, e agora tem vários tamanhos, e em grupos de rock fica cada vez maior, para permitir mais graves e mais peso. Enquanto falava, afrouxava as peles dos tons e do surdo para mostrar como costuma afinar a própria bateria: sempre com as duas peles (a em que toca e a de ressonância) na mesma tensão. Assim, cada peça "fala" em unÃssono.
"É engraçado sentar em uma bateria que não é a tua, parece que eu tô usando um sapato de outra pessoa". Perguntado sobre o quanto a assinatura de um músico depende da afinação, ele relativizou: "é importante, mas o que define é a pegada. Se você sentar na bateria do Copeland ou do Bonham [baterista do Led Zeppelin, já morto] já afinada, não vai ter como tocar como eles".
Barone também contou como gosta de se apresentar ao vivo: com o retorno nos fones de ouvido (o 'in ear') onde ouve a banda toda e com uma caixa alto-falante subwoofer de dezoito polegadas extra, atrás dele, para não deixar de sentir os graves, "para fazer ventar". E fez a ressalva de que isso só vale para tocar em shows. Em estúdio, a história é bem outra, e o kit de bateria chega a ser todo diferente e mais espaçado. É para facilitar a gravação e o trabalho dos técnicos de som.
Sem jeito, abriu o jogo: estava deslocado ali sozinho, está acostumado a tocar pra banda. Nesse momento, o olho começou a procurar quem não estava lá, e assim mesmo contou como é bom tocar entrosado com o baixista Bi, companheiro de Paralamas, a quem comparou a um chinelo velho ou a uma estrada de asfalto novo. Puro carinho.
O papo tinha chegado à intimidade, e isso disparou finalmente as demonstrações na bateria, para deleite dos não mais alunos mas apenas fãs, que pediam exemplos como quem grita bis na platéia. Entre uma virada e outro solo, lembrou de causos como o da famosa introdução de Ska, feita pelo saxofonista Léo Gandelman. O convidado começou a tentar um sofisticado improviso de free jazz, e foi cortado por Herbert: "não, faz mais tipo uma galinha cacarejando". Para susto de todos os presentes, a resposta não foi um palavrão, mas um "entendi, entendi" seguido do que é hoje uma das mais famosas frases do sempre referencial naipe de sopros do Paralamas. Ainda outra história veio de Bruno Levinson, que contou do dia em que recebeu uma ligação do baterista que não conhecia pessoalmente: "tudo bem? Sei que você trabalha aà com bandas novas, e eu tô aqui com umas peças de bateria que não quero mais, posso te dar pra distribuir?" Dias depois chegava a Kombi carregada de alegria para uma geração de músicos ainda na batalha diária da música.
Como a história se repete, na quarta-feira foi a vez de outro grupo de músicos se ver feliz da vida depois de tudo que Barone lhes ofereceu assim, timidamente e fingindo desconforto, com a mediação de Bruno. Só que dessa vez, eles puderam agradecer ali mesmo, na hora.




































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