Pop e Sempre Acompanhado
10 de janeiro de 2008
por bernardo mortimer
Para começar, o dia de Dunga era o grande exemplo de que correr atrás e atuar em diversas frentes, mais do que nunca, é a regra da vida de músico. Ao meio-dia tinha tocado com Milton Guedes, que aliás também foi ao Be Happy e participou de demonstrações sobre bases pré-gravadas em músicas como Maria Fumaça, Isn't She Lovely e Fullgás. Depois do show da hora do almoço, tinha ido ensaiar com o senhor ministro da Cultura, já de olho no carnaval, e agora estava ali, lembrando do começo da carreira em Brasília, na banda de Cássia Eller, e da vinda ao Rio, trazido pelo próprio Milton, para tocar com Oswaldo Montenegro. Foi com o autor de Léo e Bia que veio a primeira lição que aprenderia na vida profissional: tocar não para si, mas para o outro. E, principalmente, no tempo do outro. "Eu tive que aprender ali a tocar uma nota por compasso, nada de sair enfiando nota".
Em seguida, foi Lulu Santos que ensinou ao baixista que tinha visto tocar na banda de Milton que baixo é pra soar grave. Claro, cada pedaço de história tinha uma demonstração na hora, estilo propaganda de remédio de emagrecimento: antes era assim, depois ficou muito melhor... Na medida em que oficineiro e oficinantes iam ficando mais à vontade, surgiam mais histórias sobre estilo, liberdade para criar e jogo de cintura para lidar com egos.
Sem citar nomes, a não ser os de quem têm mais elogios do que críticas a fazer, contou uma deliciosa história sobre a gravação para um determinado disco. Estava tudo escrito em partitura e ensaiado quando o tal artista sem identificação cismou que certo compasso tinha que ser diferente. Tinha que ser tum-tum. Assim, dito com a boca. Tum-tum? Perguntava Dunga com o baixo. Não, tum-tum, respondia o tal cara com a boca. E de tuntuntum pra lá e pra cá, foram oito horas de gravação, e um desgaste que o músico só guarda como piada e lição para nunca mais. É dura a vida de instrumentista...
Um dos baixistas presentes no estúdio, Laufer, compositor de Kátia Flávia, entre várias outras, era também um dos que mais participava com perguntas. Uma delas foi sobre o uso do 'in ear', um fone de ouvido para apresentações ao vivo que permite que cada integrante da banda ouça o som geral (ou só dos instrumentos que quiser) sem que cada um precise jogar lá para cima o volume do amplificador. Dunga defendeu o aparelhinho com veemência, e contou que se tivesse começado a usá-lo mais cedo, talvez não tivesse 20% a menos de audição hoje. Sobre uma possível perda de espontaneidade, garantiu que o remédio é ensaiar muito. O também presente baixista de Marcelo D2 e do Cabeza de Panda, Mauro Berman, completou ainda que em casos de muitos músicos no palco, o 'in-ear' é a garantia de que todos se ouçam a contento.
Endorse, para quem não sabe, é a palavra que se usa no meio musical para dizer o que no esporte seria um patrocínio. Dunga é um dos poucos brasileiros, embora a prática seja cada vez mais comum, a ter um contrato para usar instrumentos de uma marca xis, oportunidade que surgiu quando a banda de Lulu Santos visitou uma feira de música. Mais do que o dinheiro que vem junto com o contrato, o baixista explicou que é importante estabelecer novos meios de profissionalizar, e mais, formalizar a vida de músico. E além do quê, a vida na estrada em turnê é muito prejudicial para um instrumento cheio de sutilezas, materiais, componentes eletrônicos ou não. Daí, a segurança de ser um endorse de uma marca.
Por último, depois de ter citado como bê-a-bá do estudo as linhas de baixo de Paul McCartney nos Beatles e de James Jameson na Motown, Dunga disse que em um país de tantos bons músicos, a diferença pode acabar sendo a boa e velha cara-de-pau. Mas sem ser entrão. Foi assim que ele conseguiu o emprego dos sonhos dele, um dia, quando Lulu Santos entrou em um ensaio em que ele participava e durante um intervalo pegou a guitarra para dedilhar, Na hora, Dunga acompanhou o groove e emendou assunto.
A história continua sendo escrita até hoje. E assunto é que não falta para novos workshops...
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Parabéns Dunga. Amei.