Samba Torto
25 de janeiro de 2008
por bernardo mortimer
O Fino Coletivo levou os diferentes sotaques da própria formação para o Humaitá Pra Peixe disposto a passar por cima dessa história de que se tem cadeira é pra se sentar. Para os seis, se tem cadeira, é pra mexer ao ritmo dos sambas. E o show começou com a brincadeira das guitarras em cuíca de Boa Hora, para deixar logo de cara que nada é óbvio na abordagem ao ritmo mais brasileiro dos ritmos brasileiros.
Se 2007 foi um ano bom em reconhecimento para o que era um projeto paralelo e se tornou uma prioridade, também foi para o crescimento do som da banda. Os arranjos vocais, o uso da guitarra às vezes como percussão outras como efeitos ressonantes (e ainda como condução da levada, embora mais raramente), e a personalidade da banda só cresceram de um ano para cá, e a apresentação da Sala Baden Powell serviu para consolidar o fato ao público. Se o show tinha mesmo cara de 'cada um mostra o seu' há seis meses, hoje não tem mais. Tudo soou coeso, pensado e elaborado na interseção do gosto de cada um deles.
O tom da investigação do samba apresentada teve um tanto da elegância clássica de metrópole nordestina de Adriano Siri, um dos vocalistas e o mais carismático - cheio de alegria pura revezada em momentos de timidez e de exibicionismo. Foi ele quem levou um gosto de terra ao som, pela voz aguda que solta entre sorrisos contentes. Teve outro tanto da concentração de Alvinho Lancellotti, o mestre de cerimônias formal e voz principal ora solo ora nos coros. E da leveza e bom gosto de Marcelo, que riu e fez careta enquanto coordenava como um Tim Maia em silêncio os retornos, agudos e graves da banda, e defendia composições densas e sensíveis sobre os caminhos do encontro à vocação, parte do que há de melhor no repertório do show. Sem contar nas levadas e na presença de Alvinho Cabral, no peso e nos timbres de Daniel Medeiros e nas quebradas de Marcos César, que afinal sustentam a linha de frente.
Mais cedo, Oswaldo Pereira abriu a noite com uma revisada no samba de antigamente em que a melodia foi a prioridade, e o sopro o contra-ponto. Na banda de teclado, percussão e violão de sete, os sax tenor e soprano, o clarinete e a flauta transversa de Marco Túlio foram os que mais brilharam em contra-cantos que apoiaram e duelaram com a métrica esquisita da voz do compositor.
E de um a outro show, o que não faltou foram motivos para ficar satisfeito. Se o carnaval se aproxima, a noite do HPP foi uma prévia em alto nível que levantou o povo no teatro e, apertados lá no fundo ou comportados em frente à cadeira, botou todos para dançar.
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