Uma Noite Linda
08 de janeiro de 2008
por bernardo mortimer
O anfitrião Bruno Levinson abriu a noite deixando claro que não ia perder a grande arma que tinha para o bate-papo: a amizade com Toni e Davi, duas figuras com passagens importantes pelo Humaitá Pra Peixe. E tratou de puxar de Toni a mudança dele do teatro para a música, ao assumir os vocais da Banda Bel, no HPP de 94. Do filho de Moraes Moreira, Bruno pediu a lembrança pelo camarim ao fim de show no Sérgio Porto, em 2002, momento que acabou sendo muito importante para o lançamento dos discos-solo do então apenas guitarrista de apoio das bandas de Marisa Monte e Caetano Veloso.
Davi ainda falaria da infância no sítio dos Novos Baianos, o que o fez puxar Mistério do Planeta (Moraes e Galvão), de João Gilberto "virtuoso do suingue", o que o fez tocar uma versão de Na Baixa do Sapateiro (Ary Barroso), e da lendária apresentação aos onze anos de idade no Rock in Rio de 85, quando tocou Brasileirinho no cavaquinho, o que o fez repetir a performance vinte e três anos depois, agora na guitarra.
A cada música apresentada, a palavra mudava de microfone, e Toni também falou muito. Para começar, se lembrou dos tempos de infância em Vila Kennedy, na zona oeste da cidade, onde ouvia "seis meses de samba e seis meses de black" nas rádios. Filho de uma empregada doméstica que trabalhava há anos em uma casa de Copacabana, na zona sul, acabou sendo adotado pelos Garrido - o que, de cara, o apresentou a outro universo, o da mpb dos grandes festivais e do rock progressivo. Ao ficar no meio do caminho entre as zonas oeste e sul, não se sentia nem lá nem cá, e considera este período muito rico, porque foi conhecer de tudo, Bebeto, rei dos bailes populares, e Jorge Ben, mais conhecido em Copa. Toni mostrou essa mistura do suingue da orla e do subúrbio com uma música de Bebeto e outra de Chico Buarque.
A essa altura da conversa, o baiano e pai Moraes Moreira já não conseguia ficar só assistindo em uma mesa de canto. Ele era chamado o tempo todo a participar, e comentar os temas ali tratados, principalmente quando eram citados nomes como Ney Matogrosso, Toni Tornado e Wilson Simonal.
Se Moraes entrava na conversa, o que dizer de Davi nas respostas de Toni e vice-versa, bem informal como previsto. Tanto que o guitarrista que acompanhava Toni, Sérgio Yazbek, foi quem puxou uma versão de Purple Haze (Jimi Hendrix) com Zanata (Toni na época da Banda Bel) e que misturou os entrevistados. Aliás, o mesmo aconteceria na música que fecharia a parte talk do talk show: Eu Também Quero Beijar (mais uma vez Moraes Moreira e Pepeu Gomes).
Foi aí que fez-se um intervalo para o início do "showzinho" que Davi faria com Donatinho e a participação de Toni. O filho de João Donato, que também passou pelo HPP em 2005, disparava bases no laptop e entortava freqüências em uma série de máquinas como um vocoder (que distorce a voz), um teclado Korg (que distorce sons em midi), e até um joystick do Nintendo Wii (que faz a mesma coisa só que com movimentos). Davi comandava a guitarra e pedaleira com o tempero baiano que tem no sangue. E o repertório ia de clássicos remexidos do suingue brasileiro ou não, de Gilberto Gil a Lulu Santos, de Michael Jackson a Jerônimo e Luiz Caldas.
Entreouvido na mesa onde Moraes tomava um suco de laranja com Léo Gandelman e João Donato (pai) e as respectivas companhias: - Tamos fodidos, cara. - Porra! - São só dois no palco, e eles fazem tudo!!
Mas como naqueles momentos em que a música vira mágica, o alto astral que imperava no ar tomou conta e as coisas começaram a perder o controle. Para o bem geral da, como já dito anteriormente, Cinemathèque lotada. Primeiro foi Toni Garrido, depois Léo de saxofone alto, depois um irrepreensível Donato pai (que comandou o coro feminino enquanto fingia descobrir os brinquedinhos do filho) e finalmente o violão de Moraes Moreira. Cada um roubou para si um pedaço do show e fez da noite do dia sete para oito de janeiro de 2008 uma data a se guardar na memória afetiva.
Foi dia dos pais, dia dos filhos, dia dos peixes, e principalmente um dia muito especial para todos os presentes.
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e eu perdendo uma coisa dessas... belo texto, bernardo!
O Papo jah tava bom. E aih me vem aqueles virtuohsos no palco, com todas aquelas canjas, uma melhor que a outra, show pra historia da musica brasileira. daqui ha 20 anos vamos olhar pra tras e lembrar deste dia com saudade.
Que noite... Que entrevista... Que show!!!
Muito bom!!!
O talk assim como o show foram maravilhosos. Um desastre foi a organização do evento... A noite começou com quase uma hora e meia de atraso, tive que ligar para três nº diferentes para obter informações sobre o evento, o valor de R$15 pelo show, informado na internet e por telefone, era desconhecido pela recepcionista da casa (que mandou "que ficássemos a vontade enquanto o local do show não fosse aberto e que quando fosse, os garçons avisariam"... Estou esperando até agora pelo aviso...). O local estava lotado (não cabem 240 pessoas como informado no site), pessoas sentadas pelo chão e quase sendo pisadas pelos garçons. Que pena! Tomara que tomem alguma providência!